segunda-feira, abril 02, 2007

Adamastor

O MOSTRENGO

“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa


Cape Point, 19 de Fevereiro de 2007 – Hora e meia diante do Adamastor, contemplando a sua imponência e os mares por ele guardados. A ida ao covil do Mostrengo do fim do mar é, para quem nasceu na pátria Lusa, simplesmente arrepiante. Situarmo-nos na ponta daquele promontório, com os ventos cruzados, contemplando as águas e a aparente fragilidade dos navios que as cruzam, enquanto tentamos perceber o que seria atravessá-las nas cascas de noz em que se navegava há 500 anos atrás.
Ter estado, por 90 minutos apenas, naquele ponto do continente africano, foi inegavelmente uma das maiores experiências da minha vida. Recorrendo às palavras de Churchill, não hesitaria em classificar o momento em que Bartolomeu Dias dobrou Cape Point como a nossa “finest hour”, o instante em que o mundo se dobrou perante o rectângulo do extremo sudoeste da Europa.
Aí chegado mais de 500 anos depois desse momento, limitei-me a contemplar, mar e rochedo, e a formular um desejo nas águas do Cabo da Boa Esperança, como fazem todos os que por lá passam. O desejo, esse, fica comigo…

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